sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Terrorismo Social

A notícia do jovem que esta semana matou dez pessoas numa escola na Finlândia deixou-nos mais uma vez perplexos. O feito não é novidade mas não deixa de ser sempre surpreendente. Que sociedade é esta em que vivemos alheados dos sinais de violência eminentes e que permite a inevitabilidade de tais actos.
Nos EUA surge sempre como justificação a facilidade de obtenção de armas assim como a repressão social dos meios mais provincianos. Que dizer então de sociedades como a Britânica e a Finlandesa? Parece haver um mal-estar transversal que afecta as camadas de população mais jovem cuja única libertação para a raiva ou frustração recalcada é matar indiscriminadamente e acabar com a própria vida.
Estaremos perante uma forma de terrorismo social? Se a motivação não é o fanatismo religioso nem questões económicas, algo de muito errado aconteceu no percurso destes jovens que os levou a um estado de alienação de tal ordem que única forma de integração foi a desintegração total levada a cabo pelo assassinato dos seus semelhantes e consequente, ou não, suicídio.

domingo, 21 de setembro de 2008

A Sopeirinha


Por falar em memórias, sobrevive ainda, aparentemente de boa saúde, a Sopeirinha.
Fui muitas vezes comprar café nesta loja com as minhas avós e a minha mãe. Inebriada pelo cheiro aguardava pacientemente pelo atendimento que tardava sempre, tantas eram as solicitações. Entretinha-me a ver as vitrines com café embalado, e observava atentamente aquele ritual da moagem ali mesmo à nossa frente. Depois levávamos aquele aroma embrulhado num cartucho dentro da mala até casa, como se fosse um tesouro.
Hoje compro café no supermercado, mas ficou-me o gosto para toda a vida. Uma chávena grande meio cheia com duas colheres de açúcar.

Sinais da crise

Hoje deambulei pela Baixa de Setúbal, algo que já não fazia há algum tempo. Para além das obras na Avenida Luisa Todi que enchem tudo de pó e ofuscam o pouco verde já existente, deparei-me com um cenário de desolação de ruas sujas, lojas encerradas -por falência certamente, sendo que muitas das sobreviventes exibem um aspecto decadente...toda a baixa envolta numa espécie de premonição do fim. Sobrevivem os franschisings e as lojas chinês, tudo o resto vai-se transformando aos poucos em memória. Triste cidade esta, cada vez mais uma sombra de si mesma. Irão todos os projectos Polis desta vida chegar para inverter o marasmo? Tenho as minhas dúvidas.

domingo, 31 de agosto de 2008

Carla Bruni - L'amoureuse

L'amoureuse

Il semble que quelqu’un ait convoqué l’espoir
Les rues sont des jardins je danse sur les trottoirs
Il semble que mes bras soient devenus des ailes
Qu’à chaque instant qui vole je puisse toucher le ciel
Qu’à chaque instant qui passe je puisse manger le ciel
Les clochers sont penchés les arbres déraisonnent
Ils croulent sous les fleurs
au plus roux de l’automne
La neige ne fond plus la pluie chante doucement
Et même les réverbères ont un air impatient
Et même les cailloux se donnent l’air important
Car je suis l’amoureuse, je suis l’amoureuse
Et je tiens dans mes mains la seule de toutes les choses
Je suis l’amoureuse, je suis ton amoureuse
Et je chante pour toi la seule de toutes les choses
Qui vaille d’être là qui vaille d’être là
Le temps s’est arrêté les heures sont volages
Les minutes frissonnent et l’ennui fait naufrage
Tout paraît inconnu tout croque sous la dent
Et le bruit du chagrin s’éloigne lentement
Et le bruit du passé se tait tout simplement
Les murs changent de pierres
Le ciel change de nuages
La vie change de manières et dansent les mirages
On a vu m’a-t-on dit le destin se montrer
Il avait mine de rien l’air de tout emporter
Il avait ton allure ta façon de parler
Car je suis l’amoureuse, oui je suis l’amoureuse
Et je tiens dans mes mains la seule de toutes les choses
Je suis l'amoureuse, je suis ton amoureuse
Et je chante pour toi la seule de toute les choses
Qui vaille d’être là qui vaille d’être là

Kafka à Beira Mar

Haruki Murakami, foi o meu companheiro de férias com o seu Kafka à Beira Mar. Estes japoneses são loucos, se ainda dúvidas restassem, mais uma obra literária a comprová-lo. No meio da sua loucura uma capacidade imensa de ser feliz de uma forma que nós ocidentais nunca iremos compreender.

«Há anos que Nakata não sabia o que era ver o mar, uma vez que não havia mar em Nakano. Agora, pela primeira vez, dava-se conta das muitas saudades que tinha. Durante todos aqueles anos não pensara sequer nisso. Como que a confirmar esse mesmo facto, acenou afirmativamente com a cabeça, esfregou o pouco cabelo que tinha, voltou a enfiar o gorro e deixou-se ficar ali durante muito tempo, sem tirar os olhos do mar. Tudo o que sabia acerca do mar confirmava aquilo que os seus olhos abarcavam: estendia-se a perder de vista, a água sabia a sal e era lá que os peixes viviam.
Ficou sentado no banco, a respirar o ar do mar, vendo as gaivotas a voarem em círculos por cima da sua cabeça, observando os barcos ancorados ao largo. Olhava e olhava e não se cansava do que via. Volta e meia uma gaivota branca pairava sobre as verdes ervas de Verão e pousava no parque. O contraste do branco com o verde dava um belo quadro. Nakata tentou chamar uma gaivota que andava por ali a passear na relva, mas ela não lhe deu resposta, limitando-se a lançar um olhar impessoal. Não se via nenhum gato. Os únicos animais no parque eram as gaivotas e os pardais. Enquanto Nakata bebia pequenos goles de chá do seu termo, começou a pingar, e ele abriu o seu precioso chapéu -de-chuva.»

Nocturnos de Agosto (2)





Nocturnos de Agosto








Com ou sem FMI...